sexta-feira, 3 de abril de 2020

De que maneira o uso de desinfetantes e a lavagem das mãos com água e sabão podem nos proteger contra microrganismos e vírus?


Antes de mais nada, é preciso definir alguns termos. Desinfetante é uma substância química que tem a capacidade de eliminar a maior parte dos microrganismos nocivos presentes em uma superfície inanimada ou viva (com exceção de endosporos bacterianos, altamente resistentes). Eliminar a maior parte dos microrganismos significa que nem todos serão mortos ou removidos. A completa eliminação se dá apenas com a esterilização, que destrói todas as formas vivas.

Desinfecção é o termo aplicado quando usamos um desinfetante sobre uma superfície inanimada, como uma mesa, por exemplo. Antissepsia é a desinfecção de superfícies vivas, como a pele. Ou seja, desinfecção e antissepsia correspondem ao mesmo processo, porém em superfícies diferentes.

Várias substâncias têm ação desinfetante, dentre elas álcool etílico, álcool isopropílico, cloro, iodo, formol, fenol e muitas outras. O que define qual desinfetante devemos usar, depende de uma série de fatores, como toxicidade do produto, facilidade de obtenção, preço e o tipo de microrganismo ou vírus que se deseja eliminar. A eficácia de um desinfetante depende do seu mecanismo de ação (sobre quais estruturas do microrganismo ele age), da concentração utilizada, do tempo de exposição dos microrganismos ao desinfetante e da quantidade de microrganismos presentes na superfície que se deseja desinfetar, supondo que se tenha uma ideia deste número.

O desinfetante ideal deve ser pouco ou nada tóxico para quem o utiliza, de fácil aquisição e ser barato. Além disso, é interessante que seja efetivo contra vários grupos de microrganismos e vírus. Ideal nem sempre corresponde à realidade e dificilmente teremos todas essas qualidades em um único produto.

Não vou abordar aqui desinfetantes de uso restrito e hospitalar, mas sim aqueles que encontramos facilmente em farmácias e supermercados e que podem ser usados no dia a dia, inclusive para a proteção contra o novo coronavírus. Também não vou entrar em detalhes químicos e moleculares sobre os mecanismos de ação. Para aqueles que desejam conhecer mais sobre o tema, sugiro a leitura do capítulo Controle do Crescimento Microbiano do livro Microbiologia (Tortota, Funke e Case, 2017 ou qualquer outra edição).

O Cloro tem amplo emprego como desinfetante. Ele atua como agente oxidante, impedindo que as enzimas celulares funcionem adequadamente. O principal exemplo de produto à base de cloro é o hipoclorito de sódio ou água sanitária, que pode ser usado como alvejante e desinfetante doméstico.

Os álcoois eliminam bactérias e fungos, mas não os endosporos bacterianos. Entretanto têm pouca ou nenhuma ação sobre vírus não envelopados. Atuam desnaturando as proteínas, tornando-as não funcionais, destruindo membranas celulares e dissolvendo lipídios, o que é bastante importante para a eliminação de vírus envelopados, como o SARS-CoV-2. Esses vírus apresentam uma camada de lipídios envolvendo seu capsídeo, camada proteica que envolve o material genético. A concentração ideal do álcool é 70%, pois a desnaturação de proteínas necessita de água para acontecer. Por isso, não é recomendado o uso de álcool absoluto (100%) ou 93, 96%, como desinfetante. Concentrações menores que 70% têm sua eficácia diminuída.

Os sabões, sabonetes e detergentes são agentes de superfície, também conhecidos como surfactantes ou tensoativos. Essas substâncias têm pouca ação desinfetante ou antisséptica e sua principal função é remover mecanicamente os microrganismos e sujeiras da pele. A pele apresenta, naturalmente, uma camada oleosa, produzida por nossas glândulas sebáceas. O sabão, em contato com esses lipídios (gorduras, secreções sebáceas), rompe essa camada, formando micelas, que são pequenas gotas que carregam os lipídios, as sujeiras e os microrganismos em seu interior. Esse processo recebe o nome de emulsificação. A água serve como veículo para levar estes resíduos embora.

Muito tem se falado sobre a importância e efetividade da lavagem das mãos para o combate ao novo coronavírus. Para os microrganismos como bactérias e fungos, os sabões agem removendo-os mecanicamente da pele durante a lavagem. No caso específico dos vírus envelopados, essa camada é rompida, destruindo a estrutura viral, que é eliminada juntamente com os resíduos presentes na pele. Por isso, qualquer sabão ou sabonete é eficiente, não sendo necessários aqueles com substâncias bactericidas, as quais não têm qualquer efeito sobre os vírus.

Existem várias publicações que ilustram os mecanismos de ação dos produtos citados nesse artigo. Vale a pena conferir essa: https://www.compoundchem.com/2020/03/31/destroy-coronavirus/?fbclid=IwAR3kU6_a_B1aHeuyQSmQqtqTWSzrVNHoNCsLQdq07fDq6EKCpu0DR_awKBQ

De que forma a lavagem das mãos e o uso de desinfetantes nos protegem contra o coronavírus?

·  A lavagem das mãos com água e sabão é comprovadamente eficiente e recomendada para eliminação do novo coronavírus. Lave as mãos com frequência e sempre que retornar da rua e após manusear objetos como chaves, sacolas, embalagens de compras.

·     O álcool gel 70% é tão eficaz quando o álcool líquido 70%. A diferença entre eles é que o primeiro não é tão agressivo em contato com a pele e é menos inflamável, por ter uma consistência mais densa. O álcool líquido é altamente inflamável e se espalha com facilidade, o que pode causar acidentes graves. Na falta do álcool em gel, o álcool líquido 70% pode ser usado, mas deve-se redobrar os cuidados para evitar acidentes com fogo. Use o álcool gel sempre que estiver em locais sem acesso a água e sabão.

·       A água sanitária encontrada nos supermercados tem concentração em torno de 2 a 2,5% de cloro ativo. O hipoclorito de sódio pode ser encontrado em soluções com 12 a 15% de cloro ativo. Este produto pode ser usado na desinfecção de superfícies, chaves, maçanetas e embalagens, depois de convenientemente diluído. Não use na pele ou na limpeza de celulares! O Conselho Federal de Química recomenda que sejam adicionados 25 mL (metade de um copo de cafezinho) de água sanitária (2 ou 2,5%) em 1 litro de água. A solução deve ser homogeneizada por agitação e aplicada sobre a superfície que se deseja desinfetar e, após 15 a 20 segundos, deve-se secar com um pano limpo ou papel toalha. Para a limpeza de pisos, sanitários e sola de calçados, diluir 50 mL de água sanitária em 1 litro de água. Frutas e hortaliças devem ser mergulhadas em solução de água sanitária (1 colher de sopa em 1 litro de água) por 15 minutos. Não misture a água sanitária com outros produtos químicos!

Referências


MACEDO, J. Solução caseira para eliminar o coronavírus da sua casa. (2020) http://cfq.org.br/wp-content/uploads/2020/03/Review_a%CC%81gua_sanita%CC%81ria-versa%CC%83o-23_03_-2020-versa%CC%83o_3.pdf Acessado em 02/04/2020.



GOLD, N.. AVVA, U. Alcohol sanitizer. Last Update: February 6, 2020. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK513254/ Acessado em 02/04/2020.
Manual das águas sanitárias https://www.tratamentodeagua.com.br/artigo/manual-das-aguas-sanitarias/ Acessado em 02/04/2020.

TORTORA, G.F.; FUNKE, B.R.; CASE, C.L. Microbiologia. 12 ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.

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