quinta-feira, 9 de abril de 2020

O sistema imune e a proteção natural contra microrganismos e vírus


Atualmente, ao abrirmos qualquer site de notícias, somos bombardeados com inúmeras informações sobre o novo coronavírus. Sua origem, sua estrutura, os medicamentos que potencialmente podem ser usados contra a COVID-19, o desenvolvimento da tão aguardada vacina. Nesse artigo, abordo alguns termos e assuntos para facilitar o entendimento de tantas informações.

Estamos expostos a microrganismos o tempo todo. Alguns fazem parte da nossa microbiota normal - a qual você já deve ter ouvido falar como “flora normal” - ou seja, habitam diferentes partes do nosso corpo sem nos causar mal e até nos protegem de patógenos! Outros têm capacidade de invadir nossos tecidos e desencadear doenças. Seria esperado, então, pela quantidade de microrganismos existentes, que estivéssemos sempre doentes. Porém, felizmente, isso não acontece.

Nosso organismo apresenta a incrível capacidade de oferecer resistência a estes patógenos (microrganismos ou vírus causadores de doenças), seja impedindo sua entrada, removendo-os se conseguirem entrar ou combatendo-os, se estes permanecerem nos nossos tecidos.

O nosso sistema imune é responsável por estas respostas, as quais são bastante complexas. A capacidade de defesa de um organismo é chamada imunidade e ela pode ser de dois tipos: imunidade inata e imunidade adaptativa.

A imunidade inata (defesas presentes ao nascimento) é responsável por respostas rápidas, impedindo a entrada do patógeno no organismo ou causando sua eliminação. Se o patógeno conseguir passar pelas linhas de defesa da imunidade inata, entra em ação a imunidade adaptativa, a qual leva a uma resposta altamente específica a determinado microrganismo.

As moléculas do patógeno, reconhecidas pelas nossas células de defesa, são denominadas antígenos. Neste caso, a resposta não é imediata, mas vai levar ao desenvolvimento de memória imunológica, mediada por células chamadas linfócitos (linfócitos B) e que culminará com a produção de anticorpos (resposta imune primária).

Este organismo, ao entrar em contato com o patógeno em um segundo momento, já será imune contra ele, pois apresenta anticorpos que eliminarão o microrganismo ou vírus (resposta imune secundária). Alguém que contraiu sarampo em algum momento da vida, por exemplo, não terá a doença novamente, pois estará imune a ela.

Deste modo, pode-se dizer, de forma muito simplificada, que a imunidade inata é uma resposta rápida e emergencial a um patógeno, mas que não torna o indivíduo imune ao mesmo. Por outro lado, a imunidade adaptativa é mais demorada, mas leva à efetiva imunização do indivíduo contra patógenos específicos, por meio da produção de anticorpos.

Mas o que são anticorpos?
Anticorpos são proteínas, também chamadas imunoglobulinas. Eles reconhecem os antígenos e neutralizam toxinas e vírus. Revestem microrganismos, num processo chamado opsonização, e, com isso, as tornam reconhecíveis pelas células de defesa que realizam fagocitose (“engolem” os patógenos e os destroem). Ainda ativam moléculas responsáveis pela resposta imune e impedem que os microrganismos se liguem às mucosas.

A resposta mediada por anticorpos é altamente específica, ou seja, eles são produzidos com base nos antígenos que são apresentados ao nosso sistema imune e se ligam especificamente a eles. Então, anticorpos para o vírus influenza A (H1N1) não funcionam contra o novo coronavírus, por exemplo.

Imunidade ativa e passiva
A imunidade pode ser ativa, como exposto acima, ou passiva. Neste último caso, os anticorpos não são produzidos pelo próprio indivíduo quando em contato com o patógeno, mas ele os recebe de alguma forma.

Anticorpos podem atravessar a barreira placentária e passar da mãe para o feto, por exemplo. Também são secretados pelo leito materno, imunizando o bebê enquanto seu sistema imune se desenvolve. A imunidade passiva não envolve células B e persiste apenas enquanto os anticorpos estiverem sendo transferidos. Esta é uma das razões pelas quais o aleitamento materno é importante.

Ambos os tipos de imunidade, passiva e ativa, podem ser induzidos artificialmente. É possível introduzir um antígeno em um organismo e induzir o mesmo a produzir anticorpos, sendo este o princípio da vacinação (imunização).

Também é possível introduzir no paciente os anticorpos produzidos por outro indivíduo. Estes não levam à memória imunológica e são ativos por um curto período, geralmente semanas. Após esse tempo, são degradados pelo organismo.

Recentemente, foi divulgado que estão sendo feitos testes com soro obtido de pacientes curados de COVID-19 (Coronavirus disease – doença causada por coronavírus) e que apresentam anticorpos contra o novo coronavírus (SARS-CoV-2). Esta estratégia, portanto, consiste em introduzir os anticorpos (imunização passiva artificial) contra esse vírus no organismo dos doentes, visando uma resposta imediata contra o patógeno.

No próximo post, abordarei vacinas, inclusive as estratégias que vêm sendo desenvolvidas para a produção da vacina contra o novo coronavírus. Não perca!


ABBAS, A.K.; LICHTMAN, A.H.; PILLAI, S. Imunologia celular e Molecular. 8 ed. Elsevier: Rio de Janeiro, 2015.
MURRAY, P.R.; ROSENTHAL, K.S.; PFALLER, M.A. Microbiologia Médica. Ed. 6. Elsevier: São Paulo, 2009.
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TORTORA, G.F.; FUNKE, B.R.; CASE, C.L. Microbiologia. 12 ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.

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