quarta-feira, 22 de abril de 2020

Perguntas que você sempre quis fazer sobre vacinas - Parte 1


Como vírus animais podem infectar o ser humano?

Para responder a essa pergunta, é preciso antes entender alguns pontos, que serão discutidos a seguir.

Humanos e animais sempre tiveram uma relação próxima. Utilizamos animais para transporte e trabalho, para alimentação e como companhia. Essa proximidade, embora seja natural, por vezes pode levar à transmissão de doenças causadas por vírus, bactérias, fungos e parasitos, conhecidas como zoonoses.

Alguns exemplos de zoonoses sobre as quais você já deve ter ouvido falar são: a hantavirose, uma doença viral transmitida pela urina e fezes de ratos silvestres; a raiva, causada por um vírus e transmitida por animais carnívoros, dentre eles o cão, e também por morcegos; e a leptospirose, causada por uma bactéria, Leptospira, e transmitida ao homem pela urina do rato.

Observe que nestes casos citados acima, o animal, na maioria das vezes assintomático, transmite para o homem, não havendo normalmente transmissão de pessoa para pessoa.

Mas e as doenças que têm origem animal e são transmitidas de pessoa para pessoa?

Estima-se que 75% das doenças humanas emergentes têm origem animal (USAID – Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). São conhecidas como doenças emergentes e podem surgir por meio da modificação do comportamento do patógeno. A capacidade de um vírus em sair de um hospedeiro animal e infectar seres humanos é chamada “spillover”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define como doença emergente aquela causada por um patógeno recém conhecido, ou que sofreu evolução recente (mutação) ou já tenha ocorrido anteriormente, mas que mostra aumento na sua incidência ou expansão na área geográfica quanto ao número de hospedeiros ou vetores. É caso da Síndrome Respiratória Severa e Aguda (SARS-CoV), de 2002, da gripe H1N1, em 2009, da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV), em 2012 e do novo coronavírus (SARS-CoV-2), 2019. Perceba que, nestes casos, a transmissão passa a ser humano – humano, ou seja, a primeira transmissão foi zoonótica, porém o vírus adquiriu a capacidade de ser transmitido pelo ser humano.

Deste modo, é possível que um vírus que inicialmente era encontrado em um ou poucos hospedeiros animais, adquira a capacidade de infectar outros hospedeiros, embora isso não seja uma regra. Na verdade, é uma ocorrência esporádica, que pode resultar em epidemias e pandemias como a que presenciamos agora com a Covid-19.

Se o novo coronavírus foi transmitido aos humanos por um animal, podemos tomar a vacina contra coronavírus canino e ficar imunes ao SARS-CoV-2?

No caso do SARS-Cov-2 (novo coronavírus) e do coronavírus que causa doença em cães, estes pertencem à mesma família, compartilhando características gerais como: apresentar envelope, ter aspecto de coroa ao microscópio eletrônico e conter um genoma de RNA.

Porém, por suas características genéticas, cada um é restrito aos seus hospedeiros. Há relatos da detecção do novo coronavírus em cães e em um tigre, porém ainda não há evidências de que a doença se manifeste nestes animais. E não se conhecem casos de doença humana causada pelo coronavírus canino, o qual é responsável por gastrenterites, especialmente em filhotes.

Por serem geneticamente diferentes, estes vírus não apresentam os mesmos antígenos e, por isso, a vacina contra o coronavírus canino é específica para este tipo e não contempla os antígenos do novo coronavírus humano. Assim, esta vacina não imuniza contra o SARS-CoV-2.

Por que precisamos tomar a vacina contra gripe todo ano?

Há quatro tipos de vírus influenza que são sazonais (A, B, C e D). Os vírus A e B são responsáveis pelas epidemias de gripe que acontecem todos os anos. O influenza A tem 4 subtipos, que são nomeados de acordo com as proteínas que apresentam em sua superfície, mas apenas os subtipos A(H1N1) e A(H3N2) estão em circulação em humanos. O vírus A(H1N1) foi responsável pela pandemia de 2009.

O Ministério da Saúde divulgou que, ao final de 2019, foram registrados 5.714 de casos de influenza no Brasil e 1.109 óbitos. Como é uma doença de fácil transmissão e sua evolução pode levar a quadros graves, a vacinação é muito importante. Hábitos de higiene, como aqueles que estamos empregando para controle da COVID-19, também são válidos para o controle da gripe e outras doenças infecciosas.

A forma mais eficaz de proteção contra esse vírus é a vacinação. Como o vírus influenza sofre mutações com muita facilidade, a Organização Mundial da Saúde (OMS) monitora continuamente os vírus em circulação e a composição da vacina. Essa vacina, durante muitos anos, contemplava os vírus mais representativos, sendo dois subtipos de influenza A (H1N1 e H3N2) e o influenza B. Por isso, essa vacina é denominada trivalente. Depois de 2014, uma nova variante do influenza B foi adicionada à vacina, tornando-a tetravalente. Devido a essa característica dos vírus influenza, é necessária a imunização anual.

No Brasil, via rede pública, temos acesso à vacina trivalente, que é fornecida gratuitamente pelo Ministério da Saúde para a população alvo: idosos com 60 anos ou mais, adultos com idade entre 55 e 59 anos, crianças de 6 meses a 6 anos, gestantes, mulheres até 45 dias após o parto, profissionais da saúde, professores, indígenas, portadores de doenças crônicas, forças de segurança e salvamento, pessoas privadas de liberdade, funcionários do sistema prisional e jovens entre 12 e 21 anos sob medidas socioeducativas.

A OMS informou que houve modificações em três cepas do vírus e, portanto, a vacina de 2020 não é a mesma que tomamos em 2019. A vacina tetravalente tem, além das 3 cepas alteradas (2 de influenza A e 1 de influenza B), mais uma cepa de influenza B, conferindo, portanto, maior proteção. Porém, ela está disponível apenas na rede privada.

A vacinação contra o vírus influenza é altamente recomendada neste momento, pois nos casos de síndromes respiratórias em pessoas vacinadas, o diagnóstico de H1N1 pode ser descartado, agilizando o diagnóstico da Covid-19. Lembre que a vacina contra o vírus influenza não imuniza contra o SARS-CoV-2, pois são vírus diferentes.


BRASIL. Ministério da Saúde. Informe epidemiológico de influenza: monitoramento até a semana epidemiológica 49 de 2019. Disponível em: http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2019/dezembro/23/Boletim-epidemiologico-SVS-38-2-interativo.pdf. Acesso em 07/04/2020.

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