quarta-feira, 29 de abril de 2020

Perguntas que você sempre quis fazer sobre vacinas – Parte 2



Por que há vacina contra alguns vírus e outros não?

Os desafios na produção de vacinas virais residem na busca de antígenos. O próprio vírus é um antígeno e pode ser utilizado integralmente, porém inativado ou atenuado. A forma mais segura de produzir a vacina, entretanto, é utilizando epítopos do vírus, representados por suas proteínas ou fragmentos delas, e que sejam efetivos em induzir a resposta imune no hospedeiro.

Ainda, é necessário contemplar a enorme variabilidade de alguns vírus, cujo material genético sofre mutações (alterações no material genético) com alta frequência. E, por fim, devemos considerar como o vírus invade as células do hospedeiro e quais células são seus alvos.

Alguns vírus entram nas células, sofrem replicação e, após a produção de novas partículas, são liberados para invadir novas células. Outros têm a capacidade de se inserir no material genético da célula hospedeira e ficar em estado latente por muito tempo. As estratégias para a produção de vacinas devem levar em conta estas peculiaridades dos vírus. Complicado, não?

Por que ainda não há vacina contra o HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana)?

Antes de responder a esta pergunta, precisamos entender como o HIV infecta as nossas células. Vou explicar de forma bem resumida.

O HIV é um retrovírus cuja estrutura é composta pelo material genético (RNA), um capsídeo proteico e um envelope lipídico. Contém 9 genes, que codificam proteínas importantes para a entrada do vírus na célula e estabelecimento da infecção. Existem dois tipos de HIV, com base nas suas diferenças genéticas, o HIV-1 e o HIV-2. O HIV-1 é o principal causador da AIDS globalmente, enquanto o HIV-2 é endêmico em alguns países da África Ocidental.

A proteína gp120 do vírus reconhece o receptor CD4, presente em algumas células humanas (linfócito T CD4+, macrófagos e células dendríticas). Depois, ele se liga a um co-receptor que permite que o envelope do vírus se funda com a membrana da célula, liberando seu conteúdo no citoplasma desta.

Dentro da célula, o seu RNA sofre transcrição reversa para DNA, por meio da enzima transcriptase reversa, codificada pelo HIV. Essa transcrição reversa pode gerar inúmeras mutações, por isso o HIV é tão variável.

O material genético do vírus se integra ao DNA da célula. As células infectadas levam o vírus aos linfonodos e, de tempos em tempos, o material genético do vírus, agora no DNA da célula, orquestra a produção de novas partículas virais, que são liberadas para infectar novas células. Em algumas células, o material genético do vírus permanece integrado, mas sem produzir novas partículas virais. Isso representa um estado de latência do vírus, que pode durar muitos anos. Neste estado, a célula está infectada, mas não está produzindo cópias do HIV, sendo um reservatório do vírus. Em algum momento, estas células podem voltar a produzir partículas virais.


Quando os vírus são liberados, as células fagocíticas do sistema imune desencadeiam respostas que ativam os linfócitos B, para que produzam anticorpos contra o vírus, e os linfócitos T CD8+ citotóxicos, que destroem as células infectadas pelo HIV. Lembrando que as células infectadas são os linfócitos T auxiliares CD4+, importantes na resposta imune.

O sistema imune, por meio dos linfócitos B, produz anticorpos IgM contra o HIV, que persistem por meses. Porém, o HIV ao se replicar, sofre inúmeras mutações, produzindo muitas variáveis. Os anticorpos produzidos são específicos e não contemplam todas as variantes do HIV que existem no organismo infectado. Por isso, não somos capazes de debelar a infecção e ela se torna crônica.

Assim, o HIV tem a capacidade de “enganar” o nosso sistema imune, pois ele pode ficar escondido por muito tempo e ainda sofrer mutações que não são reconhecidas pelos anticorpos produzidos.

Ao longo da infecção por HIV, as células T CD4+ infectadas passam a produzir quantidades anormais de sinalizadores celulares, como interleucinas e interferons, importantes na resposta imune. Deste modo, a imunidade do indivíduo diminui. Ainda, o HIV faz com que o organismo pare de responder a novos antígenos e as células fagocíticas deixam de reconhecer e destruir novos patógenos.

À medida que a imunodeficiência progride, o número de linfócitos T CD4+ diminui muito, o indivíduo passa a apresentar sintomas como febre, perda de peso, diarreia e fadiga, relacionados com a AIDS, e as infecções oportunistas aparecem.

Interessados em entender mais sobre o HIV e como é feito seu diagnóstico, recomendo a leitura do Manual técnico para o diagnóstico da infecção pelo HIV em adultos e crianças (2017): https://www.saude.gov.br/images/pdf/2017/dezembro/27/Manual-Tecnico-para-o-Diagnostico-da-Infeccao-pelo-HIV---Revisao-2017--4-edicao-30102017---Consulta-publica.pdf


Desde 1983 muitas tentativas vêm sendo feitas no intuito de produzir uma vacina contra o HIV. Espera-se que esta vacina que seja capaz de estimular o sistema imune a produzir defesas contra ele e combatê-lo numa possível infecção futura.

O grande desafio na produção da vacina é contemplar as inúmeras mutações que o HIV sofre, o que pode levar a até um milhão de variantes do vírus em uma pessoa assintomática!

Quer dizer, mesmo que tivéssemos uma vacina contra o HIV, esta não contemplaria todas estas variantes. Além disso, o HIV vem se separando em clados, que são grupos geneticamente diferentes, em diferentes regiões geográficas, e isso também dificulta o desenvolvimento de uma vacina global.

O que se espera de uma vacina preventiva global contra o HIV?

A vacina global contra o HIV deverá ser capaz de desencadear uma resposta imune conhecida, duradoura e potente que levará à proteção contra as diversas variantes do HIV-1.

Quatro estratégias vêm sendo adotadas para a produção da vacina. A primeira busca criar uma vacina específica para cada região geográfica, visando englobar as linhagens de HIV-1 circulantes nos diferentes locais.

A segunda estratégia visa desenhar uma vacina que leve à produção de anticorpos contra proteínas do envelope viral (Env), capazes de neutralizar todos os subtipos de HIV-1. Os estudos até o momento mostram que estes anticorpos parecem prevenir a aquisição do vírus em primatas não humanos.

Uma terceira abordagem visa produzir uma vacina que estimule a produção de anticorpos contra regiões muito conservadas (sem mutações) do material genético do HIV-1. E, finalmente, a quarta abordagem pretende criar uma vacina que resulte em respostas imunes altamente específicas aos subtipos de HIV-1.

Confira a lista de vacinas preventivas atualmente em testes:

Existem também vacinas terapêuticas sendo desenvolvidas. Uma vacina terapêutica visa aumentar a resposta imune ao HIV em pessoas que já contraíram o vírus.

A vacina terapêutica levaria a uma diminuição na progressão da doença, com redução da carga viral, menor necessidade de uso diário de drogas para controle da replicação viral e prevenção da transmissão do HIV. Até o momento, não há vacina terapêutica aprovada, mas há várias em testes.


Existem mais de 30 estudos com vacinas atualmente para combater o HIV-1, mas ainda não temos vacinas aprovadas.



A seguir: 



Aguardem os próximos posts!


Referências

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Aids: etiologia clínica, diagnóstico e tratamento.

Clinical trials search – Therapeutic vacines.

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Manual técnico para o diagnóstico da infecção pelo HIV em adultos e crianças (2017): https://www.saude.gov.br/images/pdf/2017/dezembro/27/Manual-Tecnico-para-o-Diagnostico-da-Infeccao-pelo-HIV---Revisao-2017--4-edicao-30102017---Consulta-publica.pdf Acesso em 20-04-2020.

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TORTORA, G.F.; FUNKE, B.R.; CASE, C.L. Microbiologia. 12 ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.

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