quarta-feira, 1 de abril de 2020

Vírus para cá, vírus para lá. Mas o que é um vírus?


O assunto mais comentado hoje no mundo é o novo coronavírus. Muito se fala e se escreve sobre (SARS-CoV-2 – Severe Acute Respiratory Syndrome – coronavirus 2), como se espalha, as características da doença (Covid-19 – Coronavirus disease), mas será que todos sabem o que ele é?

Afinal, o que são vírus?

Esta é uma pergunta difícil de responder. Estudantes da área biológica aprendem sobre vírus em disciplinas como Microbiologia, Epidemiologia e Vacinologia. Pensando assim, pode-se considerar um vírus como microrganismo? Onde estes elementos se inserem na árvore da vida?

Considerando que a definição de ser vivo passa pela capacidade de crescer, produzir energia (metabolismo), responder a estímulos, se reproduzir e evoluir, então vírus seriam “não-vivos”. Vírus apenas são replicados quando no interior da célula hospedeira, não crescem nem produzem energia (ATP). Mas vírus evoluem. O material genético dos vírus sofre mutações e novas variantes surgem ao longo do tempo. Por isso, pegamos gripe mais de uma vez. Também por esta razão, precisamos tomar a vacina contra H1N1 todo ano. O exemplo mais atual é o novo coronavírus, que antes tinha como hospedeiro um animal (como o morcego), e por conta de mutações, adquiriu a capacidade de infectar seres humanos.

Essa dualidade tem uma razão de ser. A linha que separa o vivo do não vivo é tênue. Pensando em bactérias, seres procariotos que têm autonomia para viver fora de um hospedeiro, é obvio que o conceito de vivo se aplica. Mas e os endosporos, formas latentes de resistência, que algumas bactérias assumem em condições adversas? O metabolismo do endosporo é mínimo ou inexistente, então ele seria não vivo? Mais um ponto para se pensar.

Deixando de lado essa dicotomia, pode-se ampliar um pouco a discussão. Vírus não se encaixam nas definições que conhecemos, mas eles têm características biológicas?
Raoult e Forterre (2008) sugerem que os vírus possam ser considerados organismos codificantes de capsídeo (CEOs – capsid-encoding organisms) – a capa proteica que envolve o material genético - em contraposição aos organismos codificadores de ribossomos (procariotos e eucariotos) – organela responsável pela síntese proteica.
Certamente, a existência de um ácido nucleico (DNA ou RNA) pode fazer com que se pense com mais cuidado nessa questão. Basicamente, existem três teorias que explicam o surgimento dos vírus. A primeira é a teoria progressiva, a qual sugere que os vírus se originaram de uma molécula de RNA com capacidade de autorreplicar e passar de uma célula para outra. A segunda teoria, regressiva, pressupõe que estes elementos se originaram de células que foram perdendo seus componentes, tornando-se dependentes de outras células. E ainda há a hipótese de que os vírus existiam antes das células e que estes as predaram e evoluíram com suas células hospedeiras (coevolução).

Muito se discute, mas não há consenso sobre o surgimento dos vírus e tampouco sobre o seu status, vivo ou não vivo. Entretanto, talvez isso seja o menos importante. A incrível capacidade do vírus de controlar e direcionar o metabolismo da célula hospedeira para produzir cópias de si mesmo é inversamente proporcional à sua simplicidade morfológica. Hoje entendemos com muita clareza que um vírus é capaz de parar o mundo e produzir impactos na vida de todos nós. Sairemos desta pandemia com novas prioridades, com muito mais respeito pela ciência e, certamente, com uma nova visão de mundo e do nosso papel nele. Mesmo sem saber se um vírus é um ser vivo.

Referências

WESSNER, D. R. The Origins of Viruses. Nature Education 3(9): 37 (2010).


RAOULT, D.; FORTERRE, P. Redefining viruses: Lessons from mimivirus. Nature Reviews Microbiology 6, 315–319 (2008) doi:10.1038/nrmicro1858.
KOONIN, E.V.; STAROKADOMSKYY, P. Are viruses alive? The replicator paradigm sheds decisive light on an old but misguided question. Studies in History and Philosophy of Biological and Biomedical Sciences 59: 125-134 (2016).

STEPHENS, P. R. S.; OLIVEIRA, M. B. S. C.; RIBEIRO, F. C.; CARNEIRO, L. A. D. Virologia. In MOLINARO, E. M.; CAPUTO, L. F. G.; AMENDOEIRA, M. R. R. (Org.). Conceitos e métodos para a formação de profissionais em laboratórios de saúde, v. 2. Rio de Janeiro: EPSJV; IOC, 2010. v. 2. 254 p.

28 comentários:

  1. Que bacana! Amei!❤️
    Como sugestão, já que tanto almejamos uma vacina objetivando o fim dessa pandemia, que tal o conhecimento de como são produzidas vacinas à luz da pesquisa microbiológica? Bjs😘

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  2. 👏👏👏👏👏👏👏
    Que orgulho dessa minha amiga!
    Um exemplo de profissional dedicada e suuuuuper competente!!!
    Sou fã número um!!!
    😍😍😍

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    1. Obrigada, meu amor!! Digo o mesmo de você!! Manda sugestões!!!!!

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  3. Sensacional!!! Parabéns pela iniciativa!

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  4. Parabéns, Patrícia, pela excelente iniciativa. Sugestão: além de matérias teóricas, fundamentais para entendermos a natureza das coisas, publicar também conteúdos práticos, como as características e importância do uso de máscaras, por exemplo.

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    1. Obrigada, João Carlos. Sim, excelente sugestão!! Aguarde que logo estará no blog!!

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  5. Parabéns Paty! Sucesso, profissão linda está de ensinar!

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  6. Parabéns Professora Patrícia pelo trabalho!
    Como sugestão de tema: Como o álcool em gel, o sabão funcionam contra o vírus.

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  7. Prof Patrícia, amei seu texto. Posso disponibilizar para meus alunos?

    Bjs... saudades

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  8. Muito bem explicado, professora! Parabéns

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  9. Parabens professora Pati! Saudades das suas aulas! 👏👏👏👏👏👏

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  10. Oie, profe. Excelente texto, que tal falar sobre as nossas células de defesa. Como é a estrutura da resposta imunológica.

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