quarta-feira, 27 de maio de 2020

Epidemias de coronavírus



O que são os coronavírus?

Coronavírus compõem o maior grupo de vírus da ordem Nidovirales, que inclui as famílias Coronaviridae, Arteriviridae, Mesoniviridae e Roniviridae. A família Coronaviridae compreende duas subfamílias, a Coronavirinae e a Toronavirinae.

Todos os vírus da ordem Nidoviridales são RNA vírus envelopados, cujos genomas podem conter até 33,5 kilobases (33.500 bases). Sua organização genômica é muito conservada, ou seja, não sofreu mudanças significativas ao longo do tempo.

Os vírions, partículas virais infecciosas, são esféricas e têm aproximadamente 125 nanômetros (ou 0,000125 milímetros) e são visíveis apenas ao microscópio eletrônico. A característica mais marcante dos coronavírus é a “coroa”, formada por projeções das proteínas spike presentes no envelope viral. Dentro do envelope viral encontra-se o nucleocapsídeo, que é simétrico. As principais proteínas estruturais codificadas pelos coronavírus são: S (spike), M (membrana), E (envelope) e N (nucleocapsídeo).

Veja a representação gráfica do vírion no artigo “How to discover antiviral drugs quickly” de autoria de Parks e Smith (2020):

Coronavírus que causam doenças em humanos

São conhecidos sete coronavírus que causam doenças em humanos, sendo quatro deles responsáveis pelo resfriado comum e três por síndromes respiratórias agudas graves: O SARS-CoV (Síndrome Respiratório Aguda Grave), o MERS-CoV (Síndrome Respiratória do Oriente Médio) e o SARS-CoV-2 (Síndrome Respiratória Aguda Grave 2 – Covid-19).

SARS-CoV, MERS-CoV e SARS-CoV-2 são vírus que têm origem em animais e que adquiriram a capacidade de infectar seres humanos. Essa capacidade surgiu por meio de mutações no material genético, que no caso destes vírus é o RNA.

O principal questionamento sobre as doenças emergentes é como um vírus animal pode avançar a barreira entre espécies e adquirir a capacidade de infectar seres humanos. A explicação mais plausível é que, ao utilizar animais exóticos como alimento, as populações estão entrando em contato com vírus desconhecidos. Possivelmente, por mutações, estes tornaram-se aptos a infectar células humanas. Ainda, em animais que são criados em confinamento, como aves e suínos, aglomerados e, muitas vezes, com pouca higiene, os vírus são espalhados com mais facilidade. Com isso, aumenta a chance de infectarem seres humanos que consomem a carne destes animais. Este fato fez com que a ameaça de novas epidemias, ou pandemias, se tornasse mais real e inevitável.

A SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome) foi a primeira epidemia do século 21, ocorrida em 2003. Causada pelo vírus SARS-CoV, iniciou na China, afetando 8439 mil pessoas em 32 países e 3 continentes, causando 812 mortes. A SARS não atingiu o status de pandemia, pois não teve espalhamento em todos os continentes. Em julho de 2003, a OMS declarou que a epidemia havia terminado.

Quando os primeiros casos de SARS foram observados, o mundo foi altamente afetado. Não por sua taxa de mortalidade, que era relativamente baixa, mas pela iminência de uma crise global. Não se conhecia o vírus, não havia tratamento ou vacina. Lembrando que isso aconteceu em 2003 e os sistemas de saúde na época não estavam preparados. Perceba que 17 anos se passaram e o mundo ainda não está pronto para lidar com uma doença emergente de grandes proporções, como a Covid-19.

Na ocasião, não havia testes para confirmar a infecção e o diagnóstico era clínico. A SARS se apresentava como uma gripe, com menor ou maior severidade e podia evoluir para quadros pulmonares graves, levando à morte. A idade era um fator importante, uma vez que pessoas idosas eram mais acometidas que jovens e crianças. O período de incubação era de 2 a 10 dias e acredita-se que a transmissão ocorria após o aparecimento dos sintomas, uma vez que a carga viral em assintomáticos era baixa. A transmissão ocorria por contato com pessoas ou objetos infectados.

A SARS apresentava 3 fases, que podiam durar de 18 a 20 dias. Na primeira, após a infecção, o paciente poderia ficar assintomático por 7 dias, mostrando pouco comprometimento pulmonar. Na segunda fase, quando o sistema imune começava a combater a infecção, observa-se febre, diminuição da saturação de oxigênio e pneumonia. Na fase 3 ocorria a destruição pulmonar. Pessoas que se recuperaram, apresentaram sequelas pulmonares. Muitas vezes, pacientes mais idosos nem chegaram à fase 3. Foram relatadas manifestações intestinais, hepáticas, renais, cardíacas e trombose. Dentre as pessoas infectadas com este vírus, 25% desenvolveram dificuldades respiratórias e 10% morreram.

Nesta publicação da OMS você pode conhecer mais sobre a SARS e as ações tomadas pelos diferentes países durante a epidemia:

Em 2012, surgiu a Síndrome Respiratória do Oriente Médio, MERS, causada por um coronavírus – MERS-CoV – na Península Arábica. Outros países tiveram casos em pessoas que haviam viajado para locais de alto risco, como Estados Unidos, Reino Unido, Áustria, Argélia, Egito, França, Alemanha, Itália entre outros. Foram observados 681 casos e 204 mortes. O período de incubação do vírus variava entre 2 a 10 dias, e os casos evoluíam para pneumonia, sendo que 30% dos pacientes morriam.

O MERS-CoV é um vírus transmitido zoonoticamente para humanos via contato direto ou indireto com dromedários na Península Arábica. A transmissão humano-humano é limitada e não sustentada, ocorrendo principalmente em profissionais de saúde. Por isso, por enquanto, a MERS não cumpre os requisitos para se tornar pandêmica. Desde 2014 até 2018, 56 casos foram reportados na Península Arábica e a OMS permanece em vigilância.

No final de 2019, em Wuhan, na China, apareceram os primeiros casos de uma pneumonia de origem desconhecida, que foi atribuída a um novo coronavírus, em 27 de dezembro. Em 31 de dezembro um comunicado foi emitido alertando sobre uma possível epidemia.

A sequência do genoma do então chamado 2019- nCoV foi publicada em 10 de janeiro de 2020. O vírus foi renomeado como SARS-CoV-2, por suas semelhanças com o SARS-CoV, causador da SARS, e a doença foi chamada de Covid-19 (Corona Vírus Disease – 2019). Em 30 de janeiro de 2020 a OMS decretou a Covid-19 como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional e em 11 de março de 2020 a doença foi caracterizada como pandemia.

Os primeiros casos de Covid-19 estão ligados ao mercado de Huanan, em Wuhan, na China. Portanto, é possível que o animal de origem do novo coronavírus estivesse nesta localidade. A similaridade entre o SARS-Cov-2 com vírus de morcegos e de pangolins (um tipo de mamífero) indica que estes, possivelmente, são reservatórios deste vírus.

Neste artigo falo sobre a possível origem do novo coronavírus:

Enquanto escrevo este artigo, o mundo contabiliza 5.614.458 casos e 350.958 mortes. No Brasil, são 394. 507 casos e 24.600 casos fatais.

Não há, até o momento, tratamento eficaz ou vacina contra Covid-19. Mais de 100 vacinas candidatas estão sendo desenvolvidas. Veja este artigo:

E agora?

Mas não pense que o que estamos vivendo hoje é novidade. Historicamente, a humanidade reage de forma semelhante quando ameaçada por um inimigo invisível. Na obra de Camus, A Peste (The Plague, 1947), que é o livro de cabeceira de muitos infectologistas, o autor descreve como a sociedade reage à ameaça de uma epidemia na cidade fictícia de Oran, na Argélia. Existem várias interpretações para este livro, inclusive de que é uma metáfora à ocupação nazista da França. Mas eu não vou entrar neste mérito. Quero apenas mostrar como podemos nos basear nesta obra para entender como respondemos “genericamente” a qualquer doença desconhecida. No livro, a população passa por 3 fases: a negação e autossuficiência, necessidade de informação e esclarecimento, e aceitação com atribuição de responsabilidades. Questões técnicas e morais se entrelaçam quando o caos causado pela doença afeta a vida de todos. Parece familiar?

Sabemos, por experiências anteriores, que, na ausência de drogas eficientes para controlar o patógeno, as medidas de isolamento, quarentena e distanciamento social ajudam a conter as infecções, retardam a disseminação da doença, prevenindo inúmeras mortes e mantendo a infraestrutura da sociedade. Mas, frequentemente, estas estratégias foram e ainda são consideradas impositivas, levantando problemas éticos, sociais, políticos e econômicos.

Obviamente, a ciência evoluiu muito e a medicina hoje tem formas de controlar a maioria dos patógenos, por meio de medicamentos, e evitar as infecções com vacinas. Mas e as doenças infecciosas emergentes? Estamos passando por isso com a Covid-19 e precisamos nos lembrar das estratégias já adotadas, para que possamos responder de forma adequada a este novo desafio. Novas pandemias surgirão e a quarentena e as demais medidas de saúde pública continuarão sendo fundamentais para o controle de novas doenças. Um dia aprenderemos?


ANDRADE, C.R., IBIAPINA, C.C., CHAMPS, N.S., TOLEDO JUNIOR, A.C.C., OICININ, I.F.M. Avian influenza: the threat of the 21st century. J Bras Pneumol. 35(5):470-479, 2009.

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