quarta-feira, 13 de maio de 2020

Epidemias e pandemias ao longo da história – parte 1




Em tempos de Covid-19, é frequente a comparação da pandemia atual com outros eventos similares que ocorreram ao longo do tempo. Certamente você já deve ter ouvido falar da peste, da varíola e da gripe espanhola, que dizimaram milhares de pessoas no mundo.

Neste texto vou abordar a história das epidemias e pandemias ao longo do tempo e o que estes eventos nos ensinaram, nos tornando mais preparados para enfrentar a atual pandemia e as próximas que virão.

Inicialmente, vamos definir alguns termos. Quando um determinado patógeno causa uma doença infecciosa, e ela se espalha entre as pessoas de uma determinada região ou país, este evento é denominado de epidemia. Por exemplo, em alguns países da África observamos epidemias de Ebola, ou seja, a doença fica restrita a poucos locais. Embora esta doença seja grave, por vezes fatal, ela não atinge o status de pandemia.

Chamamos de pandemia quando o espalhamento do patógeno deixa de ser localizado e atinge uma escala global. É o que observamos hoje com o SARS-CoV-2.

Quando uma doença infecta grande número de pessoas em uma determinada área e permanece estável por um período, ela é denominada endêmica. É possível eliminar uma doença de um país ou região, enquanto ela permanece endêmica em outro.

Várias epidemias e pandemias ocorreram no curso da história. Vamos conhecer algumas?

No ano 430 d.C., a Peste (ou praga) de Atenas, originada na Etiópia e espalhada para Grécia e Egito, dizimou 25% da população destes países ou 5 milhões de pessoas. Não há consenso sobre o patógeno causador desta peste. Acredita-se que poderia ser peste bubônica, febre tifóide e, mais recentemente, febre hemorrágica causada pelo vírus Ebola. Isso indicaria, se confirmado, que a origem do Ebola é muito mais remota do que se pensava.

A peste antonina ou peste de Galen (165 – 180 d.C.) ocorreu no Império Romano, espalhando-se para Grécia e Egito. Estima-se que um terço da população da região foi dizimada. Sua causa é atribuída à varíola e o impacto no Império Romano foi enorme, afetando sua supremacia econômica e militar.

Na metade do século 6, aconteceu a primeira pandemia, a Peste de Justiniano. Sua origem parece ser no Egito ou na Ásia, espalhando-se para a África e Europa. É a conhecida peste bubônica, assim denominada porque os infectados desenvolviam bulbos nas axilas e virilha. Numerosas mortes aconteceram e cidades foram esvaziadas.

A peste negra (peste bubônica), originada na China em 1334, chegou na Europa em 1347. Causada pela bactéria Yersinia pestis, foi disseminada por marinheiros, ratos e cargas que chegavam do Mediterrâneo. Não havia como controlar a peste com medicamentos, a única maneira de diminuir a disseminação era evitando o contato com pessoas e objetos contaminados.
Foi durante a peste negra aconteceu a primeira quarentena, em que os indivíduos infectados deveriam ficar isolados dos saudáveis. Houve restrição, para entrada nos países, de pessoas e mercadorias vindas de locais com a peste. Até navios eram impedidos de atracar nos portos. Durante os 50 anos em que a peste negra perdurou, reduziu a população mundial de 450 milhões para 350 a 300 milhões. Estima-se que 60% da população da Europa tenha sucumbido à peste.

A varíola acometeu diferentes populações ao longo do tempo e foi responsável por altas taxas de mortalidade, dizimando 300 milhões de pessoas no século 20. Existem registros de cicatrizes de varíola em múmias egípcias, datadas de 1157 a.C.. Em 1897, quando a múmia do faraó Ramsés foi descoberta, a varíola foi atribuída como uma das possíveis causas de sua morte.

A varíola esteve presente na Índia por milhares de anos e, na China, desde 1122 a.C.. Na Grécia há registros datados de 430 a.C.. Acredita-se que a varíola afetou as populações do nordeste da África há 12 mil anos, mas a primeira epidemia registrada aconteceu na Idade Média, na Arábia, no ano de 570. Depois disso, o vírus foi disseminado para a Europa e norte da África. Foi reintroduzido na Europa durante as Cruzadas, de 1096 a 1121. Em 1562, a doença surgiu na Grã-Bretanha. Acredita-se que os navios trazendo escravos da África espalharam a varíola para a América Central e para os mexicanos nativos. Estima-se que 3,5 milhões de astecas morreram por causa da varíola, durante a conquista do México pela Espanha, por volta de 1563. No Brasil, a varíola surgiu em 1569, dizimando diversas tribos indígenas. Nos séculos 17 e 18 a varíola causou diversas epidemias na Grã-Bretanha. Cerca de 400 mil pessoas podem ter morrido de varíola, por ano, na Europa, no final do século 18. Em 1713 a doença chegou à África do Sul, em 1769, na Austrália e na Nova Zelândia em 1912. Nos Estados Unidos, a varíola acometeu um terço da população durante o século 18.

Logo no início da pandemia de varíola, ficou evidente que pessoas que haviam contraído a doença previamente, tornavam-se imunes a ela. Isso levou Edward Jenner a desenvolver a primeira vacina contra varíola, em 1796.

Mesmo após a vacina, a varíola ainda teve várias ondas epidêmicas. Em 1972 aconteceu um surto de varíola na antiga Ioguslávia, em que 175 pessoas foram infectadas e 35 morreram. Fronteiras foram fechadas e medidas de isolamento foram adotadas. Toda a população foi vacinada novamente e em dois meses tudo voltou ao normal.

Em 1980, após campanhas de vacinação no mundo inteiro, a OMS decretou a doença como oficialmente erradicada. Isso significa que não há casos de varíola no mundo e não há necessidade de continuar com as medidas de controle.

Quer saber mais sobre a erradicação da varíola? Consulte:

Outra doença que desencadeou várias pandemias nas populações humanas, foi a cólera. Causada pela bactéria Vibrio cholera, é transmitida pela água e causa sintomas gastrintestinais que podem culminar com a morte. A primeira pandemia de cólera teve início na Índia, entre 1816 e 1826, quando foi responsável pela morte de, pelo menos, 10 mil soldados ingleses e inúmeros indianos. Entre 1829 e 1966 ocorreram 6 ondas pandêmicas de cólera no mundo, dizimando milhares de pessoas. Os cuidados adotados durante essas ondas foram os mesmos empregados durante a peste negra. Somente no final do século 19 e início do século 20, com o conhecimento sobre os patógenos causadores da peste e da cólera, os métodos profiláticos para estas doenças foram tratados separadamente, uma vez que o modo de transmissão destas doenças é diferente.

No post Epidemias e pandemias ao longo da história – parte 2 você vai ver:

  • A gripe espanhola e outras pandemias de influenza
  • HIV/AIDS
  • SARS
  • MERS
  • Ebola
  • Covid-19

Aguarde!


Referências

BEHBEHANI, A.M. The Smallpox Story: Life and Death of an Old Disease. Microbiological Reviews, 455-509, 1983.

GUHAROY, R., PANZIK, R., NOVIASKY, J.A., KRENZELOK, E. Smallpox: Clinical features, prevention and management. The Annals of Pharmacotherapy, volume 38, 440 – 447, 2004.

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JONES, D.S. History in a Crisis — Lessons for Covid-19. The New England Journal of Medicine 382;18, 2020. https://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMp2004361?articleTools=true Acesso em 11-05-2020.

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