quarta-feira, 20 de maio de 2020

Epidemias e pandemias ao longo da história - parte 2


Influenza

Há quatro tipos de vírus influenza que são sazonais (A, B, C e D). Os vírus A e B são responsáveis pelas epidemias de gripe que acontecem todos os anos. O vírus influenza A tem 4 subtipos, que são nomeados de acordo com as proteínas que apresentam em sua superfície, mas apenas os subtipos A(H1N1) e A(H3N2) estão em circulação em humanos.

Existem registros de epidemias de influenza que datam de 412 d.C.. Em 1580 aconteceu a primeira pandemia de influenza, com surgimento na Ásia, mas, na literatura científica, o termo influenza só apareceu em 1650. Em 1729 ocorreu a primeira pandemia do século 18, originada na Rússia e em 1781 foi relatada uma pandemia com origem na China. Durante estes eventos há somente relatos dos sintomas, pois o isolamento do vírus só aconteceu no século 20.

A maior pandemia do século 19 iniciou na China, em 1830 e outra originou-se na Rússia, em 1889. Esta última espalhou-se de forma mais rápida que as anteriores, matando aproximadamente 1 milhão de pessoas. A aceleração no espalhamento é condizente com as mudanças globais relacionadas ao transporte, que permitiram um maior deslocamento de pessoas.

Nos últimos 100 anos aconteceram 4 pandemias de influenza: a gripe espanhola, causada pelo vírus H1N1 (1918); a gripe asiática – H2N2 (1957), a gripe de Hong Kong – H3N2 (1968) e a gripe suína – H1N1 (2009).

Entre os anos 1918 e 1920 o mundo foi atingido pela gripe espanhola, considerada a primeira pandemia global verdadeira e a primeira que aconteceu na era da medicina moderna. Até 2019, era considerada a última grande pandemia, com fortes impactos na população global.

A gripe espanhola, causada pelo vírus H1N1, é conhecida como o maior holocausto médico da história. Acredita-se que o vírus tenha infectado metade da população mundial, embora os dados disponíveis de todos os países afetados não sejam precisos. Você pode imaginar que, no início do século 20, não tínhamos a tecnologia que temos hoje, então a subnotificação deve ter sido enorme!

A primeira onda da pandemia provavelmente teve origem na China, enquanto a segunda onda surgiu no norte da Inglaterra. A faixa etária mais atingida foi entre 18 e 40 anos e atribui-se a isso, o sistema imune robusto de pessoas jovens, que desencadeou uma tempestade de citocinas, o que pode ter sido a causa das mortes. Pessoas com mais idade podem ter sido expostas a vírus similares no passado, e com isso, tinham algum tipo de imunidade contra o H1N1.

A gripe espanhola combinou um patógeno com alta transmissibilidade, causador de uma doença grave, com a aproximação maior das pessoas, durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1918 ainda não existiam vacinas nem antibióticos, ou seja, não havia muito o que se fazer (antibióticos, neste caso, poderiam ser usados em pneumonias bacterianas secundárias à gripe H1N1.).

Medidas como fechamento de escolas, quarentenas, proibição de aglomerações de pessoas, práticas de higiene para prevenir infecções e uso de máscaras foram tomadas. Quando implementadas cedo, estas medidas foram eficientes na redução do número de infectados, e em consequência, de mortos. Se as estratégias fossem abandonadas antes da hora, era observado um aumento no número de casos. Veja que, em 1918, já se falava em achatar a curva de contágio para não sobrecarregar o sistema de saúde.

Depois da pandemia de 1918, o mundo pôde se preparar para as próximas que viriam. Em 1931 o vírus influenza foi isolado e identificado. A primeira vacina, desenvolvida em conjunto por vários pesquisadores, surgiu no final da década de 1930 e início de 1940. Ventiladores mecânicos, para equipar as UTIs, foram produzidos em 1940. E a penicilina foi descoberta em 1929, sendo usada em larga escala a partir de 1940.

Entre 1957 e 1958 ocorreu a gripe asiática (H2N2), que surgiu na China e matou cerca de 2 milhões de pessoas. Em 1968, foi a vez da gripe de Hong Kong, causada pelo vírus H3N2, a qual resultou em 1 milhões de mortes. Os vírus H2N2 e H3N2 são formados por segmentos de vírus humanos e aviários, o que pode explicar sua menor virulência. Além disso, a menor taxa de mortalidade pode ser atribuída às melhores condições para tratamento dos pacientes, bem como à existência de medicamentos para combater a doença.

Em 2009, surgiu a gripe suína, causada pelo vírus influenza H1N1/09. É assim denominada porque acredita-se que estes animais tenham passado o vírus para os humanos. Embora a gripe suína tenha adquirido o status de pandemia, ela foi bem menos devastadora que a gripe espanhola. A epidemia teve origem no México e em poucas semanas tornou-se uma pandemia, afetando 10% da população mundial e causando 200 mil mortes. Como na gripe espanhola, os adultos jovens foram mais afetados. O vírus H1N1 continua em circulação no mundo, por isso a necessidade de vacinação anual. Leia este post:


Veja um infográfico sobre as pandemias de influenza: http://www.gripenet.pt/pt/sobre-gripe/historia-da-gripe/pandemias/

Existe um documentário disponível na Netflix que aborda a gripe H1N1 e também a produção de vacinas: https://www.netflix.com/br/title/81026143

Existe hoje a preocupação com o vírus influenza A(H5N1). Em 1997 foram reportados os primeiros casos de gripe aviária em Hong Kong e em 2003 ocorreram mais alguns casos. Entre 2003 e 2008 foram descritos casos em mais de 20 países na Ásia, Europa e África e 1,5 milhões de aves foram sacrificadas para evitar a disseminação. Porém, a gripe aviária passou a ocorrer com mais frequência e em 2008, a OMS já havia registrado 387 casos, com 245 mortes.

Segundo a OMS, para a ocorrência de uma pandemia são necessários 3 requisitos: a população atingida pelo novo vírus deve ter baixa ou nenhuma imunidade contra ele; o vírus deve ser capaz de se replicar em humanos e causar doença grave; e deve ser facilmente transmitido de humano para humano. O vírus H5N1 atende os dois primeiros requisitos. Este vírus atinge, especialmente, crianças e jovens adultos. No momento, a transmissão humano-humano foi observada apenas quando as pessoas estavam muito próximas (mesma família) e apresentavam algum tipo de suscetibilidade ao vírus. Mas, quando humanos são afetados, a taxa de mortalidade pode chegar até 60%.

A OMS, em sua avaliação de ricos para influenza aviária, diz que o risco geral à saúde pública dos vírus influenza atualmente conhecidos continua a mesma, ou seja, a transmissão sustentada humano-humano permanece baixa. Mas, especialistas afirmam que uma nova epidemia de influenza A é inevitável. A OMS estabeleceu protocolos para enfrentar um possível evento pandêmico e a vigilância deve ser contínua, no sentido de identificar casos de gripe aviária em humanos. Dentre as medidas adotadas, deve-se fazer a profilaxia antiviral, aplicação da vacina contra influenza A(H5N1), restrição de circulação em áreas afetadas e isolamento dos doentes, com quarentena voluntária dos expostos e medidas de distanciamento social, com fechamento de escolas e locais públicos. Perceba que as medidas fazem parte de um protocolo da OMS, por isso estamos adotando tudo isso com a Covid-19.


HIV/AIDS

No início dos anos 1980, surgiu nos EUA um novo vírus, o vírus da imunodeficiência humana (HIV), responsável pela pandemia de HIV/AIDS. O HIV infectou mundialmente 74,9 milhões de pessoas e matou 32 milhões desde sua descoberta. Cerca de um milhão de pessoas ainda morrem por ano no mundo, devido às complicações da AIDS, entretanto, 37,9 milhões de pessoas vivem com HIV (866 mil no Brasil), sendo que 24,5 milhões têm acesso à terapia antirretroviral.
Por ter um curso lento de infecção e espalhamento, foi possível, ao longo dos anos, desenvolver tratamentos eficazes e diminuir muito a taxa de mortalidade da AIDS, embora ainda não exista cura nem uma vacina contra o HIV. Veja este post:

Ebola

Os primeiros relatos do vírus Ebola foram em 1976, na República Democrática do Congo e no Sudão. Em 1995, ocorreu uma epidemia de febre hemorrágica, causada pelo vírus Ebola, no Congo. O mundo não estava preparado para lidar com esta ameaça letal, não havia laboratórios de nível de segurança 4, necessários para trabalhar com um patógeno tão perigoso, e não havia tratamento ou vacina. Nesta ocasião, 310 casos de Ebola foram confirmados, sendo 250 fatais, caracterizando uma taxa de mortalidade de 80%.

Uma outra epidemia de Ebola, agora bem mais significativa, iniciou em 2013, na África central e oriental. Estima-se que 28 mil pessoas foram infectadas e destas, 11 mil morreram. Duas pessoas foram infectadas nos EUA, mas a doença não se tornou epidêmica neste país. Em 2016, Guiné, Serra Leoa e Liberia conseguiram interromper a pandemia, aplicando medidas como: rápida identificação dos casos, isolamento dos doentes, rastreamento das pessoas que tiveram contato com os afetados e isolamento destes.

O vírus Ebola, embora tenha uma alta transmissibilidade e alta letalidade, causa sintomas muito debilitantes em poucos dias, de modo que o indivíduo infectado acaba por se isolar e isso controla o seu espalhamento. Além disso, a morte acontece em pouco dias, fechando a cadeia de transmissão, talvez, por isso, o vírus não tenha se tornado pandêmico. Entretanto, a vigilância não pode relaxar.

A ameaça de uma nova epidemia é real, visto que novos surtos aconteceram na República Democrática do Congo em 2017 e 2018. Assim, a corrida pelo desenvolvimento de uma vacina eficiente contra o vírus Ebola continuou e, ao final de 2018, 36 protótipos haviam sido testados. O único estudo com mais resultados promissores foi o Ebola Ça Suffit. Esta vacina, rVSV-SEBOV, é composta pelo vírus da estomatite vesicular modificado para expressar uma glicoproteína do Ebolavírus Zaire. A vacina foi aprovada em novembro de 2019 e uma análise de 90 mil indivíduos vacinados mostrou uma eficiência de 97,5%, 10 dias após a vacinação.

Detalhes sobre o contexto histórico das epidemias podem ser vistos aqui: 

Veja um infográfico com a história das pandemias: https://www.visualcapitalist.com/history-of-pandemics-deadliest/


A seguir:
·       Epidemias de coronavírus

Referências

ANDRADE, C.R., IBIAPINA, C.C., CHAMPS, N.S., TOLEDO JUNIOR, A.C.C., OICININ, I.F.M. Avian influenza: the threat of the 21st century. J Bras Pneumol. 35(5):470-479, 2009.


History of pandemics. https://www.visualcapitalist.com/history-of-pandemics-deadliest/ Acesso em 11-05-2020.

HUREMOVIC, D. Brief History of Pandemics (Pandemics throughout history). In Psychiatry and Pandemics. Chapter 2, pp 7-35, 2019.

LÉVY, Y. et al. Prevention of Ebola virus disease through vaccination: where we are in 2018. Lancet, 392: 787–90, 2018.

SAMAL, J. A Historical Exploration of Pandemics of Some Selected Diseases in the World. International Journal of Health Sciences & Research, Vol.4; Issue: 2; 2014.

SAUNDERS-HASTINGS, P.R., KREWSKI, D. Reviewing the History of Pandemic Influenza: Understanding Patterns of Emergence and Transmission. Pathogens: 2- 5, 66, 2016.

TOGNOTTI, E. Lessons from the History of Quarantine, from Plague to Influenza A. Emerging Infectious Diseases, Vol. 19, No. 2, 2013.


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