quinta-feira, 15 de outubro de 2020

MICROBIOLOGIA FORENSE - Parte II

Microbioma humano na identificação forense

O microbioma humano é composto por trilhões de células de microrganimos e, por causa disso, também pode ser importante para análise forense. Quando pensamos em identificação forense, sempre lembramos da impressão digital e do DNA, não é mesmo? São ferramentas bem conhecidas e estabelecidas, difundidas em livros, filmes e séries. Mas e se eu disser a você que existe uma ferramenta biológica com potencial ainda maior e melhor para a identificação de indivíduos?

Sabe-se que o microbioma da pele é muito variável e específico para cada indivíduo, pois, dentre as bactérias que podem fazer parte dele, compartilhamos apenas 13% das espécies com outras pessoas. Ou seja, temos 87% de bactérias diferentes na nossa pele!

É fácil imaginar que, ao tocar um objeto, as bactérias presentes em nossas mãos são transferidas para o referido objeto. Mas o que não sabíamos é que essas podem ficar viáveis por vários dias e que podem ser recuperadas e comparadas com a microbiota das mãos de um suspeito de um crime. As bactérias são tão específicas para cada indivíduo que podem ser usadas com mais acuidade do que a impressão digital!

Um estudo de Fierer e colaboradores (2010) analisou a microbiota das mãos de 3 indivíduos e também as bactérias presentes em teclados de computadores pertencentes a eles. Por meio de sequenciamento do gene 16S rRNA, concluíram que existiam 3 grupos de bactérias com grande similaridade entre si e cada grupo era composto por uma dupla teclado/dono do teclado. Comparando essas bactérias com outras isoladas de 250 indivíduos que não tinham tido contato com os teclados, percebeu-se que as diferenças genéticas entre elas eram muito grandes. Isso mostrou que é possível usar a microbiota de um indivíduo como uma “assinatura” bacteriana específica. Este tipo de abordagem pode ser empregado quando não há vestígios de sangue ou sêmen na cena do crime, por exemplo, ou quando os materiais são muito texturizados para que se possa recuperar impressões digitais.

 

Micologia Forense

Até pouco tempo atrás, os fungos eram usados como evidências de crimes apenas em casos de envenenamentos por cogumelos. Hoje sabemos que os fungos podem ser importantes aliados na elucidação de crimes, especialmente em relação à determinação do intervalo post mortem, à determinação do local da morte e do culpado por um crime, e até em casos de negligência, especialmente envolvendo crianças e idosos.

Entretanto, por ser uma área relativamente nova, ainda há poucos trabalhos publicados e o número de especialistas é pequeno, o que dificulta seu uso e desenvolvimento.

Por produzirem esporos, os fungos podem fazer parte das investigações palinológicas, que utilizam pólen e pequenos fragmentos para atribuir uma relação entre uma vítima ou um local com um suspeito.

Revisões sobre o assunto, publicadas por Hawksworth e Wiltshire em 2011 e 2015, trazem vários exemplos do uso de esporos fúngicos na elucidação de crimes. Os autores descrevem casos em que culpados foram condenados após a análise palinológica das suas roupas, calçados e carros.

A determinação do intervalo post mortem é um dos maiores desafios da ciência forense. As fases da decomposição cadavérica podem durar mais ou menos tempo dependendo da estação do ano, da temperatura e umidade do local onde o cadáver foi encontrado. Além dos dados de entomologia forense, que são fundamentais para estabelecer esse período, por meio da análise da fauna entomológica cadavérica, os fungos podem ser importantes aliados. Eles apresentam características próprias de crescimento em determinados ambientes, portanto podem ser usados para determinar há quanto tempo um corpo encontra-se em determinado local. Imagine que um corpo foi encontrado e na superfície dele é possível observar o crescimento de colônias fúngicas. Após o isolamento dos fungos, é possível reproduzir em laboratório as condições ambientais em que o corpo foi encontrado e estimar o tempo de crescimento do fungo isolado. Com isso, pode-se inferir o intervalo post mortem.

Um estudo brasileiro, realizado por pesquisadores na Universidade Federal do Ceará (SIDRIM e colaboradores, 2015), analisou os fungos que cresciam em cadáveres, em 3 estágios de decomposição, e demonstrou que estes podem ser encontrados principalmente na fase gasosa de decomposição. Ainda foi determinado que fungos filamentosos podem ser isolados das roupas, dos ossos e do solo próximo aos corpos, enquanto leveduras foram encontradas nos caixões. A maior parte dos fungos encontrados são aqueles que habitam o solo e estão presentes no ar, como Aspergillus sp., Penicillium sp. e Mucor sp., enquanto as leveduras pertencem ao gênero Candida.

As potencialidades do uso de fungos como ferramentas forenses são inúmeras, abrindo um amplo leque para novas pesquisas na área.

 

Referências

 

HAWKSWORHT, D.; WILTSHIRE, P.E.J. Forensic mycology: the use of fungi in criminal investigations. Forensic Science International, 206, 1-11, 2011. https://www.researchgate.net/publication/45199583_Forensic_mycology_the_use_of_fungi_in_criminal_investigations Acesso em 08-10-2020 Acesso em 08-10-2020.

 

HAWKSWORHT, D.; WILTSHIRE, P.E.J. Forensic mycology: current perspectives. Research and Reports in Forensic Medical Sciences, 2015. https://www.researchgate.net/publication/286481964_Forensic_mycology_current_perspectives Acesso em 08-10-2020.

SIDRIM et al. Fungal microbiota dynamics as a post-mortem investigation tool: focus on Aspergillus, Penicillium and Candida species. Journal of Applied Microbiology, 2015. https://sfamjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/j.1365-2672.2009.04573.x  Acesso em 08-10-2020.

 

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